APRENDIENDO A ESCRIBIR

Mistério na biblioteca

(Imagem de cabeçalho gerada via Gemini)

Mistério na biblioteca
Mistério na biblioteca Juan A. Sánchez

Adivinhava-se uma tarde tranquila na biblioteca. Dos assistentes apenas restava Luz, que tinha ido dar uma formação a uns alunos de licenciatura que não tardariam a ter de enfrentar o seu TFG. Carolina, a responsável, estava há horas no seu gabinete a assistir a uma reunião online com a «cúpula» da Universidade.

            Alissa, no seu posto de atendimento, preparava-se para carregar alguns artigos que tinha pendentes para o repositório de um investigador que os fizera chegar de manhã; mas não eram muitos e esperava que lhe ocupasse pouco tempo. O mesmo acontecia com Roque, o seu colega, que tinha uma pilha de novas aquisições para carimbar, etiquetar e dar-lhes as boas-vindas às suas estantes.

            Ambos os técnicos esperavam desfrutar de uma tarde sossegada. Afinal, segundo dizem, o deles é um dos trabalhos que menos stress gera e era assim que pretendiam que continuasse a ser. Se tivessem querido outra coisa, não teriam continuado na redação do jornal ou a dar aulas a adolescentes imunes à aprendizagem. Até que a porta do gabinete se abriu.

—Ouçam-me —anunciou Carolina. —Pediram-me dos Serviços Centrais que lhes enviemos urgentemente um dos nossos livros, que passará a estar sob a custódia deles.

—Qual é? —perguntou Alissa.

—Um muito raro, A Poética, de Aristóteles. Uma edição da editora Clasicalia de 1953 que temos na nossa coleção de lazer.

—Porra —exclamou Roque. —Perdão. É que não sabia que o tínhamos. É um exemplar super raro e deve estar cotadíssimo. Não me admira que o queiram. Embora não deva ter saído por empréstimo há anos.

—Não será para tanto —respondeu Alissa.

—Acredita, é —sentenciou Roque. —Esta manhã li na imprensa que desapareceram alguns exemplares de particulares e bibliotecas. Pelos vistos, um colecionador de Vitoria denunciou um roubo na sua loja de antiguidades e a única coisa que faltava era esse livro.

—Por isso mesmo é que mo pediram com urgência —sentenciou Carolina regressando ao seu gabinete. —Há que preparar tudo para o levar. Deixem o que estiverem a fazer. Digam à Luz que é preciso retirá-lo do catálogo e eu encarregar-me-ei de o levar pessoalmente à «central».

            Ambos os bibliotecários se olharam estranhados, mas não se atreveram a questionar aquele misterioso pedido da sua chefe, ou seria uma ordem? De facto, não eram as maneiras a que estavam habituados. Mas simplesmente voltaram aos seus postos para fazer o seu trabalho e dispuseram-se, embora algo incomodados, a fazer o que lhes tinham pedido no meio de um silêncio desconfortável.

—Não entendo que tenha ficado assim por um livro do catálogo —disse Alissa quebrando o silêncio —por muito raro que seja e por muito interesse que tenham «os de cima».

—Tem em conta que desapareceram vários por todo o país —respondeu o seu colega. —Querrão protegê-lo a todo o custo.

—Não será para tanto. Por muito velho que seja, não custará um milhão de euros.

—Pois falta pouco. Vê tu mesma —respondeu apontando para o seu monitor.

—Não pode ser. É um disparate.

—Bem. Tem em conta que foi uma edição muito limitada devido a problemas da editora, que até faliu pouco depois, e que teve tão pouco interesse que mal se venderam um par de centenas na altura. Por isso se tornou um «livro maldito» que nunca ninguém se atreveu a publicar. Está cotadíssimo entre os colecionadores. Mas sim. A mim também me parece excessivo.

—Pois pela foto parece muito vulgar. Acho que já o vi antes.

—Até publicarem este e tudo se lhes vir abaixo, a coleção da Clasicalia vendeu-se muito na época. Eu próprio tenho alguns em casa.

—Olha lá se ainda és rico e tudo —bromeou a colega.

—Quem me dera tê-lo. Tenho um com o mesmo aspeto, mas é um exemplar de A República de Platão que me ofereceu o professor Ortega quando andava na faculdade. Ora, trouxe-o para o reler depois, se tivesse tempo. Vê.

—Pois é mesmo parecido. Se calhar podias enfiá-lo a um colecionador pitaltes e ele nem se dava conta.

—Mas não o venderia por nada deste mundo. Ortega foi o meu mentor e tenho-lhe muito carinho. Bem, nem que fosse o de Aristóteles me desfaria dele.

—Pois é igual ao da foto. Com razão me pareceu ter visto o que nos pediram.

—Acho estranho. Olha para o registo, não sai em empréstimo desde os tempos em que os empréstimos se registavam a esferográfica numa ficha que tinham no interior da capa.

—O quê?

—Esquece. Essas coisas deixaram de se fazer quando eu nem dez anos tinha.

Imagem generada via Copilot

            Roque procurou a cota no catálogo e foi procurá-lo ao respetivo lugar para não o encontrar. Procurou em todas as estantes da coleção de cultura geral onde devia encontrar-se e nas de lazer, que ficavam em frente. Mas não houve forma e, passado um bom bocado, voltou ao balcão onde a sua colega contava as novidades a Luz, que tinha terminado de dar a formação.

—Como correu? —perguntou a modo de saudação.

—Como sempre. A esta gente ou dás tudo feito ou cai-lhes o mundo em cima. Mas a Alissa estava a contar-me que também aqui se divertiram. E pelo tempo que demoraste, diria que muito.

—Podes crer. Corri o corredor todo e não está lá.

—Viste bem? —surpreendeu-se Alissa. —Tu acabas sempre por encontrar os livros perdidos.

—Pois hoje não será o meu dia. Olhei na estante dele, em todas as da sua coleção e nas estantes da frente e nada. E o resto da biblioteca são manuais e livros técnicos com bastante movimento. Poderia estar lá, mas algum de nós teria reparado ao ir arrumar.

—É que eu vi-o, mas há anos —acrescentou Luz. —Ponderámos abatê-lo, mas vendo que era o único exemplar na universidade, decidimos deixá-lo, embora ninguém o pedisse.

—Se eu soubesse que o tínhamos —acrescentou Roque —eu próprio o teria levado várias vezes. E é o que me dá mais raiva nisto tudo. Tenho-o querido ler desde a faculdade sem o encontrar em lado nenhum e agora que sei que o tive por perto nos dois anos em que trabalho nesta biblioteca, nem aparece e, mesmo que aparecesse, não o poderia ler porque «os chefes» o tiveram esquecido durante anos e agora têm pressa em levá-lo para o expor numa vitrina e gabarem-se do catálogo.

—A mim o que me estranha —acrescentou Alissa —é que a Carolina queira que seja retirado do catálogo. Não se deveria mudar a localização?

—Pois sim —respondeu Luz. —O que ela pede é algo que nunca fiz. Nem creio que ninguém o tenha feito.

» E o mais estranho é que falei com a Serena esta manhã sobre as tarefas mais urgentes que devíamos fazer nesta biblioteca e não me disse nada disto.

Os três colegas olharam-se tentando compreender o que se estava a passar. Se o valor que aparentemente tinha esse livro poderia justificar o saltar todas as normas e protocolos bibliotecários.

—Prepararam tudo? —perguntou Carolina fechando atrás de si a porta do seu gabinete.

—Ora bem —começou Roque. —Venho das estantes e...

—E não está —cortou secamente a responsável retirando o livro da mala. —E o que esperavas depois de ontem ter saído a notícia dos roubos e de a diretora-geral me ter ligado alarmada para protegermos o nosso exemplar? Ela não pensa noutra coisa.

—Esperava —respondeu Roque tirando-lhe o livro das mãos —que nos dissesses que tinhas isto contigo desde o início, para não estarmos a fazer figura de parvos à procura dele nas estantes.

—Além disso —acrescentou Luz —não sei como pretendes que eu simplesmente o faça desaparecer do catálogo.

—É verdade —interveio Alissa —não deveríamos simplesmente mudar a localização para a central e que eles lhe deem uma nova cota?

—Vocês farão o que eu vos mandar! —cortou Carolina arrancando o livro das mãos de Roque, que o folheava abstraído, devolvendo-o furiosa à mala. —Ouçam bem. É o que ordenaram lá de cima e é isso que se vai fazer.

» Vou agora mesmo levá-lo pessoalmente à Serena. Luz, tu vais fazê-lo desaparecer do catálogo de qualquer maneira. Faz como quiseres. Mas faz.

Dito isto, deu meia volta e saiu da biblioteca deixando o pessoal de boca aberta. Estes olharam-se uns aos outros até que, passados poucos segundos, viram chegar uma mulher pela porta lateral do edifício. Era Serena, a «chefe» de tudo, que vinha seguida de um agente da polícia.

—Boa tarde. Perdoem-me vir sem avisar, a Carolina está?

—Acaba de sair para ir ter consigo. —respondeu Luz.

—Que coincidência. Devia ter-lhe ligado antes.

—Mas se ela passou a tarde toda numa reunião telemática consigo. —disse Alissa.

—Comigo? Impossível. Depois de falar com a Luz e outros assistentes sobre assuntos rotineiros, estive reunida com o reitor durante horas. Queria vê-la para me despedir e ver se ela está bem. Pediu-nos licença sem vencimento com urgência e a partir de amanhã não trabalhará mais connosco.

Imagen generada vía Grok

—Vai-se embora?! —exclamaram Alissa e Luz ao uníssono.

—Mas ela não nos disse nada —acrescentou Roque.

—Que estranho —respondeu a «chefe». —Bem. Queria despedir-me dela e também falar sobre um assunto urgente e importante para a biblioteca antes de ela se ir embora.

—Por causa do livro que andam a roubar? —perguntou Roque. —O de Aristóteles de que temos um exemplar?

—Mas a Carolina levou-o a correr —disse Alissa. —Tirou-o das mãos do Roque há nem cinco minutos, enfiou-o na mala e saiu a correr para lho levar à central. Bem, foi o que nos disse.

—Meu Deus! —exclamou Serena. —Não posso acreditar no que parece estar a acontecer.

—Se me permitirem —acrescentou o polícia —vou tentar detê-la.

—Fabián —disse Roque ao telefone e fazendo um sinal ao polícia para que esperasse. —A minha chefe já saiu do parque de estacionamento, não já? Bem. Faz-me o favor de não lhe abrires. Vai para aí um polícia porque tem de falar com ela com urgência. Que ela não saia por nada deste mundo, está bem? Obrigado, pá —e desligando o telefone e dirigindo-se ao agente acrescentou: —Falei com a segurança. Desça ao parque e encontrá-la-á num carro azul.

—Graças a Deus —suspirou Serena. —Não perdemos esse livro. Além da sua perda, teria sido uma crise reputacional tremenda para a Universidade.

—Não o tínhamos perdido —sorriu Roque estendendo-lhe o livro. —Fiz-lhe a «troca» por um meu. Que, por sinal, tem para mim um grande valor sentimental e espero recuperá-lo o quanto antes.

—Muito obrigada —suspirou Serena. —E não te preocupes com isso. A Universidade está em dívida contigo.

—Bem, se puder pedir mais um favor...

—O que queres?

—O que havia de ser. Que me deixem lê-lo.

—Não te preocupes. Vamos digitalizá-lo de imediato e pedirei que te enviem uma cópia logo de seguida. E se quiseres lê-lo fisicamente, darei instruções para que te deixem consultá-lo sem problema.

—Assim o espero.

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Juan A. Sánchez

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